segunda-feira, agosto 03, 2009

Quando a luz acabou*


*Baseado em um acontecimento verdadeiro

Era uma noite como outra qualquer, numa cidadezinha dessas que não se têm notícias.
Uma cidade de meio do caminho. Como essas que se veem antes de chegar na cidade grande; do tipo que mais parece vilarejo, cidade na qual nunca se vai de encontro, só se conhece por acaso, quando a viagem é longa e se para no primeiro lugar que encontra.

Era uma noite como outra qualquer – lá. Céu limpo, enluarado e estrelado. Ruas tranqüilas, iluminadas vez ou outra por algum carro que passava.

Foi quando um pane apagou as luzes, e os rádios, televisores e toda parafernália elétrica. Sim, porque apesar de pequena, a cidadezinha era globalizada, tinha internet e tudo. Seus habitantes tinham o hábito de, de segunda à sábado, naquele horário, se reunirem e sentarem à frente da tevê. Esperavam surgir na tela com fundo azul, um casal: “Boa noite”. E mesmo tendo a distância material, as pessoas o consideravam próximos, tratando-os pelo nome e comentando as mudanças visuais de cada um.

Quando tudo apagou, o homem dizia alguma. A família toda estava na sala, houve quem resmungasse. Prontamente, a mãe junto com a filha mais nova se levantou e foi procurar velas para que ninguém se machucasse andando pela casa – apesar dos móveis estarem no mesmo lugar há anos. Enquanto isso, a filha mais velha abriu a janela que dava pra rua, para conferir se a vizinhança também estava às cegas. Constatou que era geral, a cidade inteira.

A rua estava escura mas, por ser estreita, conseguiu ver os vizinhos da frente conversando e se acomodando na varanda. Percebeu como toda tecnologia afastava as pessoas. Chamou a irmã e o pai – a mãe ainda procurava e acendia velas – para contemplarem a lua quarto-crescente, a única fonte de iluminação. Começaram a conversar. A comunicação entre eles não era das melhores. Definitivamente. Mas em certos momentos, apenas a presença de cada um bastava. Falaram sobre a beleza da lua, procuraram o Cruzeiro do Sul e as Três Marias – sempre fáceis de encontrar naquele céu – e tentaram adivinhar as outras constelações.

Nesse momento, já tinham esquecido o incidente e aproveitavam para desfrutar a companhia um do outro, prestando atenção aos sons não tão distante dos grilos e cigarras, absortos em pensamentos e sentimentos únicos, serenos, num ritmo que só é possível alcançar em cidades verdes do interior... quando a energia foi religada e as luzes fluorescentes se acenderam e, quebrado aquele estado de graça, voltaram rendidos à frente do televisor, diante da imagem de pessoas jamais vistas, entregues à monopolização de um canal.

E a lua continua lá, e mesmo renegada e sozinha, está sempre solícita e disposta a receber companhia. Ao contrário da cidade, sua luz nunca se apaga.

2 comentários:

ADONAMANDA disse...

adorei o texto... ontem mesmo falei da lua... cheia, linda.

Daniela disse...

Eu sempre tive uma relação de amor profundo com a Lua. Uma vez eu estava olhando pra ela no ônibus lotado e um senhor veio me perguntar o que eu olhava com tanta vontade. Eu respondi que era a Lua e ele a olhou como se nunca tivesse visto. Ou como se estivesse esquecido dela mesmo.
As pessoas estão tão preocupadas com tudo que as cerca por perto que esquecem de olhar pra cima.
Ótimo post!
Beijo Li! :)