segunda-feira, julho 17, 2006

Em Amnésia

Exitem a Polinésia, a Indonésia e, pouca gente sabe, a Amnésia, um pequeno arquipélago no Pacífico cuja principal indústria é a fitinha para amarrar no dedo e lembrar o que não se quer esquecer, que os amnesianos costumam usar nos dez dedos da mão, inutilmente, pois nunca se lembram por quê estão usando. Quem acha que o Brasil é o país mais sem memória do mundo não conhece a Amnésia, que inclusive se classificou para as finas da última Copa do Mundo mas esqueceu de ir, ao contrário do Brasil que foi mas esqueceu o futebol. (kkkkkkkkkkkkkkk)
A profissão mais valorizada na Amnésia é a de historiador-romancista. Como ninguém se lembra de nada por mais de 15 minutos os historiadores inventaram uma história grandiosa para o país que inclui até uma guerra contra os Estados Unidos, que ganharam, vários reis malucos e ditadores divertidos e hérois nacionais como o inventor do spray nasal e um amante da Rita Hayworth, além de muitos recordistas olímpicos e cinco vitórias na Copa do Mundo. A capital da Amnésia, cujo nome ninguém se lembra, tem dezenas de estátuas e monumentos homenageando atletas, generais, cientistas e filósofos que nunca existiram mas estão nos livros de história. Segundo os historiadores, Amnésia já construiu sua bomba atômica, só esqueceu onde a botou.
Amnésia também é conhecida como exportadora de garçons. Quase todos os imigrantes da Amnésia que você encontra no mundo são garçons. É fácil reconhecê-los porque são os que esquecem o seu pedido. Em Amnésia isto não era era problema porque quem pedia sempre esquecia o que tinha pedido e aceitava o que o garçom trouxesse, mas em outros países garçons amneisanos têm ouvido alguns desaforos. Que logo esquecem.
Em Amnésia não há adultério. Ou há, mas os traídos esquecem a traição com a mesma rapidez que os adúlteros esquecem seu juramento de jamais repeti-la, e volta a paz. Uma velha tradição do país - segundo os historiadores - é o duelo pela honra. Quando os desafetos se encontram para resolver tudo com espada ou pistola ninguém se lmebra mais da causa do duelo, e apesar da tradição nenhum duelo jamais foi realizado em Amnésia. Pelo menos que alguém se lembre.
Os políticos em Amnésia são todos corruptos. Os escândalos se repetem mas as comissões parlamentares reunidas para investigá-los começam, invariavelmente, com seu presidente perguntando "Alguém se lembra por que estamos reunidos aqui?" Como niguém se lembra as comissões são desfeitas, até o escândalo seguinte, quando ocorre a mesma coisa. Já houve a sugestão de se formar as comissões antes dos escândalos, que são previsíveis, pois acontecem com a mesma regularidade com que são esquecidos. A sugestão foi aceita e logo esquecida. Há pouca renovação entre dirigentes e parlamentares amnesianos porque o público esquece o que eles fizeram e os reelegem. Políticos que estão no poder há anos fazem campanha com o slogan "Finalmente uma cara nova", em todas as eleições e levam o voto do eleitos insatisfeito mesmo que não lembre bem o quê. Leis são promulgadas, esquecidas, nunca exercidas e muitas vezes promulgadas de novos - e esquecidas de novo. Em Amnésia os computadores têm memória, mas ninguém se lembra pra que serve.
É bom viver no pequeno arquipélago de Amnésia, onde ninguém cobra dívidas, guarda rancor ou tem o que contar ao psicanalista, a não ser que invente. Os historiadores-romancistas providenciam as lembranças que ninguém tem. Se Amnésia se classificou para as finais da Copa - pelo menos tem quase certeza que se classificou, faz tanto tempo - e esqueceu de ir, por que não botar na história que foi, e ganhou? Num país sem memória onde tudo é faz-de-conta, o passado pode ser o que a gente escolher.

[Exmo. , Ilmo. , DD. Sr. Luis Fernando Veríssimo]

2 comentários:

Ben-Hur Hugo disse...

eu ia fazer um comentário mais inteligente, mas esqueci o que eu ia escrever xD

bjos

Lidusurf disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
é a amnésia,né? aehuaehuaehae